Ansiedade: o que a Gestalt-terapia enxerga além do sintoma

Ansiedade

Ansiedade: o que a Gestalt-terapia enxerga além do sintoma

Controlar a ansiedade é o pedido mais comum no consultório. Mas e se ela não for exatamente um defeito a ser eliminado?

Por Yrini Constantinidou Mascarenhas CRP 06/214660

10 de agosto de 2026 7 min de leitura

"Eu queria controlar minha ansiedade." Essa frase, ou alguma variação dela, é provavelmente o pedido mais frequente de quem procura terapia hoje.

É um pedido legítimo. Ansiedade em excesso adoece, atrapalha o sono, trava decisões e desgasta relações. Ninguém precisa romantizar sofrimento.

Mas a Gestalt-terapia costuma começar por um lugar um pouco diferente do "como eliminar isso". Ela começa perguntando: o que essa ansiedade está tentando dizer?

A ansiedade como energia sem direção

Há uma formulação clássica na Gestalt-terapia que descreve a ansiedade como a tensão entre o agora e o depois, uma energia mobilizada para algo que ainda não aconteceu e que não encontra para onde ir.

Repare que isso muda a natureza do problema. A ansiedade deixa de ser um defeito de fábrica e passa a ser energia vital que está sem endereço.

Você já deve ter notado que a ansiedade raramente aparece sozinha. Ela costuma vir grudada em algo: uma decisão adiada, uma conversa que você não teve, um limite que você não marcou, uma vontade que você não admite nem para si.

Por que "só relaxar" não resolve

Técnicas de respiração e relaxamento funcionam, e são úteis para atravessar o pico agudo de uma crise. O problema é quando elas viram a única estratégia.

Porque aí acontece o seguinte: você acalma o corpo, o sintoma recua, e a questão que gerava a tensão continua exatamente onde estava. A ansiedade volta na semana seguinte, e você conclui que o problema é você, que "nem respirar direito consegue".

É como desligar o alarme de incêndio sem verificar se há fogo. Alivia o barulho. Não resolve.

A pergunta não é só como fazer a ansiedade parar. É também o que ela está sinalizando que você ainda não quis olhar.

O que a terapia faz na prática

1. Devolve o sintoma ao contexto

Ansiedade não acontece no vácuo. Ela acontece com uma pessoa, numa vida, com relações e pressões específicas. Grande parte do trabalho inicial é mapear quando ela aparece: com quem, em que situações, antes de quê.

Esse mapa costuma revelar padrões que passavam despercebidos.

2. Traz o corpo para a conversa

Ansiedade é uma experiência profundamente corporal: aperto no peito, respiração curta, estômago fechado, mãos inquietas. Na Gestalt-terapia isso não é detalhe secundário, o corpo é fonte legítima de informação.

Perguntas como "onde você sente isso agora?" não são exercício de atenção plena. São investigação.

3. Investiga o que está sendo evitado

Com frequência, a ansiedade está protegendo você de algo que parece pior: um conflito, uma perda, uma frustração, uma decisão. Quando esse conteúdo aparece e pode ser encarado, a energia costuma encontrar destino.

4. Trabalha o padrão na relação

Se você tem ansiedade em situações sociais ou de avaliação, algo disso vai aparecer também dentro da sessão, na preocupação de estar falando demais, de ser chato, de não ir bem na terapia. E aí pode ser trabalhado ao vivo, e não só relatado.

Sobre expectativa de resultado

Aqui é preciso ser honesto, e a honestidade é também uma exigência ética da profissão: psicoterapia não tem prazo garantido nem resultado assegurado. Qualquer profissional que prometa "eliminar sua ansiedade em X semanas" está vendendo algo que não pode entregar.

O que costuma acontecer, com tempo e regularidade, é outra coisa: a ansiedade deixa de ser um bloco compacto e assustador e passa a ser algo que você reconhece, nomeia e entende de onde vem. Isso não é pouco, muda a relação com o próprio estado.

Quando procurar ajuda com urgência

Se a ansiedade estiver acompanhada de crises intensas frequentes, impedindo atividades básicas, ou se houver pensamentos de morte ou de se machucar, não espere pelo agendamento de uma sessão. Procure atendimento imediato ou ligue para o CVV no número 188, gratuito, sigiloso e disponível 24 horas.

Vale também dizer: em alguns casos, o acompanhamento psiquiátrico somado à psicoterapia é o caminho mais indicado. Psicólogos não prescrevem medicação, mas devem orientar e encaminhar quando isso for pertinente.

Se você quiser entender como a abordagem trabalha no dia a dia, escrevi sobre isso em o que é Gestalt-terapia.

Próximo passo

Quer olhar para isso com apoio?

Você não precisa estar em crise para começar. Podemos conversar sobre o seu caso numa primeira sessão, sem compromisso de continuidade.