Aqui e agora: por que a Gestalt-terapia foca no presente

Gestalt-terapia

Aqui e agora: por que a Gestalt-terapia foca no presente

"Focar no presente" virou clichê de rede social. Na Gestalt-terapia o termo significa outra coisa, e não tem nada a ver com ignorar o passado.

Por Yrini Constantinidou Mascarenhas CRP 06/214660

10 de agosto de 2026 6 min de leitura

Poucas expressões foram tão gastas quanto "viver o presente". Ela aparece em legenda de foto, em caneca, em cartaz motivacional. E, de tanto circular, virou quase um conselho vazio, do tipo que faz a pessoa se sentir pior por não conseguir cumprir.

O "aqui e agora" da Gestalt-terapia é outra coisa. Não é um conselho. É um método de trabalho.

O mal-entendido mais comum

Muita gente entende que focar no presente significa não falar do passado. Isso simplesmente não é verdade.

Na Gestalt-terapia se fala muito do passado. Infância, família, relações antigas, perdas, tudo isso aparece. A diferença não está no assunto, está no modo de acessá-lo.

A pergunta não é "o que aconteceu com você lá atrás que explica isso". A pergunta é "como aquilo continua acontecendo agora".

Um exemplo concreto

Imagine alguém que cresceu num ambiente onde qualquer erro era duramente criticado. Hoje essa pessoa é adulta e trava antes de entregar qualquer trabalho.

Uma investigação histórica reconstruiria a origem: quem criticava, como era, o que se sentia. Isso tem valor e produz entendimento.

A abordagem gestáltica faria também outra coisa. Perguntaria: o que acontece com você agora, ao falar disso comigo? Onde você sente no corpo? Você está me olhando ou desviando? Ao me contar, você está esperando alguma avaliação minha?

Porque o padrão não ficou no passado, ele está acontecendo ali, na sala. E o que acontece na sala pode ser trabalhado ao vivo. O que está só no relato, não.

Não se muda uma lembrança. Muda-se o modo como ela continua operando hoje.

Por que isso torna a terapia mais eficaz

Porque o entendimento sozinho não basta

Talvez você conheça essa sensação: entender perfeitamente por que você age de certo jeito, conseguir explicar com clareza a origem do padrão, e continuar repetindo tudo igual.

Isso acontece porque compreensão intelectual e experiência vivida são coisas diferentes. Saber que você tem dificuldade de dizer não é uma coisa. Perceber, no instante em que acontece, o que você sente e como você desiste é outra bem distinta.

Porque o presente é o único lugar com ação disponível

O passado não pode ser alterado e o futuro ainda não existe. O único ponto onde há escolha possível é agora. Trabalhar no presente não é negar o resto, é trabalhar onde há alavanca.

Porque evita a armadilha da explicação infinita

Há um risco real de a terapia virar uma busca eterna pela causa definitiva, sempre uma camada mais fundo, sempre adiando a experiência. Ancorar no presente interrompe esse ciclo.

Como isso aparece numa sessão

Você vai ouvir perguntas que, no início, podem parecer simples demais:

  • O que você está sentindo agora, enquanto conta isso?
  • O que acontece no seu corpo quando esse nome aparece?
  • Você percebeu que sorriu ao falar de algo difícil?
  • O que você gostaria de ter dito naquela conversa e não disse?
  • Como é falar disso comigo, aqui?

Essas perguntas não são técnica de aquecimento. Elas são o trabalho, porque devolvem a atenção para a experiência, em vez de mantê-la apenas na explicação sobre a experiência.

E se eu só quiser desabafar?

Também cabe. Nem toda sessão precisa ser de aprofundamento, e há semanas em que a pessoa chega precisando apenas colocar para fora. Isso é legítimo e faz parte.

O "aqui e agora" não é uma exigência a ser cumprida em toda sessão. É uma âncora à qual o trabalho volta quando faz sentido voltar.

Este é um dos cinco pilares da abordagem. Escrevi sobre todos eles, junto com o que a Gestalt-terapia não é, na página sobre a abordagem.

Próximo passo

Curioso para experimentar?

Ler sobre uma abordagem dá uma ideia. Viver uma sessão dá outra. Podemos começar por uma conversa.